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Cai um mito: medicação para doenças no coração não afeta cirurgias odontológicas

Pesquisa da USP comprovou que uso de terapia com duas drogas não traz riscos de hemorragia em pacientes coronariopatas

Uma pesquisa da Faculdade de Odontologia da USP (FO-USP) mostrou recentemente que a suspensão da medicação em pacientes com o tipo mais comum de doenças cardíacas, as doenças arteriais coronarianas (DAC), é desnecessária na realização de cirurgias odontológicas. A descoberta restringe-se aos pacientes que tomam até dois tipos de remédios (terapia dual), mas quebra um mito de anos que impedia dentistas de realizarem procedimentos importantes pelo medo de que seus pacientes sofressem hemorragias. Os estudos, feitos por Frederico Buhatem em sua tese de doutorado, comprovam, com aplicabilidade imediata, que não há riscos de hemorragias bucais nos pacientes medicados.

 

Somente nos Estados Unidos, mais da metade da causa das mortes relacionadas ao coração, 370 mil, são provocadas pelas doenças arteriais coronarianas (DAC). Para as pessoas com essas enfermidades, os chamados coronariopatas, deixar de tomar a medicação por alguns dias pode causar complicações sérias, mas, mesmo assim, médicos do mundo todo receitavam a suspensão das drogas antes de procedimentos cirúrgicos odontológicos, como uma extração dentária, por exemplo.

 

Caracterizadas pelo estreitamento das paredes internas das coronárias, as principais artérias do corpo humano, as DACs surgem graças ao acúmulo de algumas substâncias como gordura, cálcio e colesterol nesses locais. Para evitar a formação de coágulos (trombos) nessas artérias, o que poderia obstruir a passagem do sangue, médicos costumam receitar aos coronariopatas remédios anticoagulantes, ou seja, drogas que dificultam a interrupção da circulação do sangue. Por isso, dadas as propriedades dos remédios, acreditava-se que quem fosse submetido a uma cirurgia bucal sob o efeito das drogas pudesse sofrer uma hemorragia no local dos cortes. Era comum então, entre a comunidade médica, receitar a suspensão desses medicamentos por uma ou duas semanas para os pacientes que precisassem passar por alguma cirurgia na boca.

 

Segundo Frederico Buhatem, pesquisador da FO, vários cirurgiões-dentistas se recusavam a atender esses pacientes com medo dos riscos: o mito de que uma hemorragia bucal pudesse surgir no transoperatório e no pós-operatório instaurou por anos o preconceito no atendimento aos pacientes com DAC. Buhatem observou em suas consultas, no entanto, que os pequenos cortes gerados não eram, como o esperado, tão difíceis de cicatrizar nessas pessoas. “A gente tinha uma experiência clínica de atender esses pacientes sob essa terapia antiplaquetária, e percebíamos que não tinha grandes quantidades de sangramento”, comenta.

 

O pesquisador explica que na literatura científica havia relatos de casos onde os pacientes que deixaram de tomar os remédios foram a óbito, mas não havia nenhum relato de que os que passaram por cirurgias bucais medicados tivessem sofrido grandes hemorragias. Instigado pelas dúvidas sobre que precauções tomar no cuidado com os coronariopatas, o pesquisador decidiu estudar ele próprio a reação desses pacientes.

 

Sangramento controlado

 

Realizado dentro do Instituto do Coração (InCor) em São Paulo, o estudo teve o acompanhamento de profissionais do Instituto. Foram avaliados 38 pacientes com DAC sob uso da terapia antiplaquetária dual com as drogas “AAS e clopidogrel”, e 35 pacientes com níveis menos complexos da doença, sem nenhum uso de medicação antiplaquetária.

 

Em ambos os grupos, todos os pacientes realizaram extrações dentárias. Utilizando somente métodos hemostáticos locais, o pesquisador observou que apesar da quantidade de sangramento ser maior no grupo com uso da medicação – com uma média de sangramento 0,4ml/min a mais que os pacientes sem o a terapia – era perfeitamente possível conter o sangue e evitar a hemorragia durante o procedimento.

 

“Se ele tiver uma cardiopatia mais séria, é preferível que seja [feito o procedimento] em um ambiente hospitalar, mas é possível realizar essas extrações em qualquer clínica”, explica o pesquisador. Buhatem chegou a extrair até três dentes dos pacientes sob terapia antiplaquetária dual e não observou nenhum caso que justificasse o mito existente entre os médicos e dentistas. O pesquisador alerta, ainda assim, que é importante sempre pedir exames antes do procedimento e utilizar o método hemostático.

 

A partir de agora, todos os pacientes com DAC em uso de terapia dual poderão realizar as cirurgias sem colocar sua saúde em risco ao deixar de tomar a medicação. “O maior beneficiário é a população”, comenta Karem Ortega, orientadora de Frederico, ao citar a aplicabilidade imediata da pesquisa, que permite que os médicos passem a permitir a cirurgia odontológica sem a suspensão desde já. A pesquisa de Frederico foi financiada pelo CAPES.

 

Fonte: USP

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